Outra Roma, de bravos guerreiros


Venezuela, hoje

Ao desembarcar na Venezuela, no final de 1818, o jovem capitão Abreu e Lima encontrou por lá notáveis semelhanças com a sua terra natal. Principalmente, no plano político.


As duas capitanias, uma espanhola outra lusitana, tinham um longo histórico de lutas de resistência, de caráter popular, assim como de enfrentamento do poder colonial, por parte das elites.


Se em Pernambuco houvera o Quilombo dos Palmares, no século XVII, os escravos de Caracas também se haviam rebelado, em 1749, e os de Mérida, 1781. Mesmo antes deles, os pobres de lá já tinham se agitado, sob a liderança de Andrés López de Rosário, o “Andrezote”, de 1730 a 1732.


E se, em Olinda, a “nobreza”, da terra proclamara independência de Portugal e tentara criar uma república, à moda veneziana, em 1710, movimento que resultaria na “Guerra dos Mascates”, os caraquenses não fizeram por menos.


Em 1797, uma rebelião liderada por José Maria España e Manuel Gual também ensaiara a liberdade e um sistema republicano à maneira dos Estados Unidos e da França, na época.


Em 1810, novamente, os venezuelanos – assim como boa parte dos patriotas hispano-americanos –proclamaram independência, aproveitando-se do fato de que Napoleão retirara a coroa de Espanha da cabeça de Fernando VII e a colocara na do seu irmão José. Derrotada a sua Primeira República, em 1812, eles fundariam a Segunda, em 1813, também esmagada, um ano depois.


A República Pernambucana de 1817 sofreu grande influência venezuelana. Domingos Martins, seu principal líder, executado na Bahia, foi amigo pessoal de Bolívar e de Francisco Miranda, outro grande líder revolucionário, chamado de “o Precursor” – todos três antigos freqüentadores da loja maçônica Gran Reunión Americana, em Londres.


A valentia dos patriotas das duas capitanias também era muito parecida.


Se na terra natal de Abreu e Lima houve grande repressão e mortandade após as rebeliões de 1710, 1817 e 1824, na pátria de Bolívar foi pior.


Os espanhóis, que conquistaram suas colônias americanas exterminando em massa as populações indígenas, resolveram aplicar o mesmo método quando se viram ameaçados de perdê-las – com as raras e honrosas exceções de alguns deles, que se opuseram a tal prática.


O general Monteverde, que pôs abaixo a Primeira República venezuelana, por exemplo, inaugurou a guerra sem quartel, ordenando a execução de todos os revoltosos que caíam em suas mãos.


Monteverde matava não apenas quem pegava em armas, mas qualquer suspeito de patriotismo, tendo massacrado populações de povoados inteiras com a ordem “de sete anos para cima, não deixar ninguém vivo”. E a partir do cerco de Puerto Bellota passara a colocar prisioneiros servindo de escudo na primeira linha de combate.


O comandante que o sucedeu – Pablo Morillo, agraciado pelo rei de Espanha com os títulos de Primeiro Conde de Cartagena e Marquês de La Puerta, ironicamente apelidado de “o Pacificador” – seguiu com as mesmas práticas, levadas ao seu extremo por José Boves, que chefiou tropas realistas entre 1813 e 1815.


Os homens desse caudillo estavam autorizados a saquear, torturar e estuprar livremente, e ele também não vacilava em ordenar execuções em massa, como o fizera ao final da primeira batalha de La Puerta e depois de tomar Valencia.


Nesta cidade ele chegou ao cúmulo de promover um baile em comemoração à sua vitória, ao qual filhas e esposas dos patriotas derrotados tiveram de comparecer; e enquanto elas eram obrigadas a dançar, à força de chicotadas, seus pais e maridos eram mortos a lançaços.


Comandando uma força irregular composta de mestiços, Boves também decidira, por conta própria, declarar um conflito racial, cuidando de exterminar todos os brancos – mesmo se tratando, ele mesmo, de um espanhol das Astúrias.


A lógica política desta bárbara ação era que as ideias independentistas floresciam no meio da elite nativa de pele clara, os chamados criollos; enquanto as massas populares, reduzidas à pobreza e à ignorância, fáceis de controlar através do fanatismo religioso, eram majoritariamente compostas por negros, pardos, índios e zambos (mestiços de negro e índio).


Estimulados pelo exemplo de cima, os subalternos liberavam seus piores instintos. Certo Antonio Zuazula, por exemplo – segundo depoimentos de outros realistas, espantados com tamanha barbaridade –, se aprazia em mandar mutilar membros e a cortar orelhas, lábios e narizes de americanos de todas as idades, envolvidos ou não com a rebelião, e depois zombar da sua “feiúra”; ou, ainda, em fazê-los caminhar sobre cacos de vidro, tendo-lhes previamente arrancado a pele dos pés.


Zuazula chegou a enviar caixas e mais caixas de orelhas para a cidade de Cumaná, com as quais os espanhóis adornavam as portas das suas casas, os seus chapéus, ou as penduravam em colares, nos pescoços. E outro chefete, por iniciativa própria, jogou cal viva sobre prisioneiros amontoados nos cárceres de Puerto Cabello, para sufocá-los. Monteverde, ao ser informado do ocorrido, apenas comentou: “os que morreram, foi pela vontade de Deus”.


Em resposta a tudo isso, Bolívar lançara uma proclamação (não chegou a ser um decreto) de Guerra a Muerte, em 1813, ameaçando revide; mas continuou a tentar negociar com Monteverde o fim da mortandade, sem obter sucesso. No ano seguinte ele autorizaria o governador militar de Caracas, Juan Bautista Arismendi, a fuzilar cerca de oitocentos espanhóis peninsulares e das Ilhas Canárias, em La Guaira.


O Tratado de Regularização da Guerra, que garantia o respeito à vida dos capturados em combate, a troca de prisioneiros etc., só seria firmado em 1820, por Bolívar e Morillo, quando o conflito já estava praticamente perdido para os europeus.