Mais perto da Europa
A vida cultural da pátria de Simón Bolívar foi sempre muito intensa, tanto no plano popular quanto especialmente ao nível das elites. Sobre ela escreveu o barão Alexander Von Humboldt, que lá esteve no início do século XIX:
"As múltiplas comunicações comerciais com a Europa e esse Mar das Antilhas, que já chamei de um Mediterrâneo com muitas bocas, influíram poderosamente sobre o progresso da sociedade na ilha de Cuba e nas belas províncias da Venezuela. Em parte alguma das América a sociedade tomou uma fisionomia mais européia, e, apesar do aumento da população negra, quem está em Havana ou Caracas se crê mais perto de Cádiz e dos Estados Unidos do que de qualquer outra parte do Novo Mundo."

Universidade de Caracas
Caracas tinha universidade desde 1721, assim como escola de música. As famílias mantuanas – as mais ricas e tradicionais, assim chamadas porque as mulheres que dela faziam parte eram as únicas autorizadas a usar mantilhas nas igrejas – buscavam com empenho educar seus filhos.
Lá, como no restante das Américas, a principal fonte do saber era a França; preferencialmente, inclusive, à Espanha, conforme ressalta Baralt: “Os nomes de Racine, Corneille, Voltaire e outros insignes autores franceses eram conhecidos e admirados antes dos de Lope de Vega, Calderon, Garcillaso, Granada, Leon, Mariana e outros príncipes da cultura castelhana”.
Humboldt também assinalou: “Encontrei nas famílias de Caracas um gosto decidido pela instrução, conhecimento das principais obras das culturas francesa e italiana, e notável predileção pela música, que cultivam com êxito.”
Tal como a elite brasileira da época, os venezuelanos ricos, inflados pelo mesmo orgulho e senso de honra dos aristocratas espanhóis, seus parentes, sentiam-se profundamente recalcados por serem chamados de “índios” na Espanha; e, mais ainda, pelo tratamento recebido em sua própria terra dos governantes e burocratas europeus, os chapetóns, em geral gente casca grossa, de muito menos educação e estirpe, que ia para lá enriquecer às suas custas.
Um viajante contemporâneo, o francês François Depons, assim atestou: “No terreno dos conhecimentos adquiridos, a competência dos criollos indubitavelmente leva vantagem, pois, em geral, os vindos de Espanha encontram no país gente que os supera em cultura”.
Tal como jovem Abreu e Lima, educado “como um príncipe”, e à francesa, no Brasil.
Nos costumes das classes populares ele também encontrou grandes semelhanças com a sua terra.
As procissões, por exemplo, eram “os únicos divertimentos do quais a população toma parte”, com “santos meio fidalgos, sobrecarregados de ouro, atravessando, nos seus andores, ruas cheias de um povo baixo notável pelo asseio nos trajos humildes; principalmente as mulheres, com suas saias de cores claras ou brancas e os seus chapéus de palha”, conforme anotou o Conselheiro Miguel Maria Lisboa, que lá esteve poucas décadas mais tarde, em 1866. E os homens usavam “ceroula de algodão americano, camisa do mesmo tecido sobreposta, à guisa de blusa, e chapéus de palha ordinária, como a gente do campo e a escravatura no Brasil”.
Particularidades e diferenças ele achou, é claro; como, por exemplo, nos velórios de los angelitos, dos bebês mortos, lá “acompanhados de danças e patuscadas ao redor do cadáver, que, para mais tempo se conservar incorrupto, se faz ferver na salmoura,” segundo registrou o escritor venezuelano Romero Garcia, no seu romance Peonia.
Mas o pernambucano, certamente, não se sentiu deslocado na Venezuela.