Majestosa Caracas


Casario antigo de Caracas

“A cidade nos pareceu limpa, grande, elegante e bem construída”, escreveu o Conde de Segur, viajante francês que a visitou em 1783, ano do nascimento de Simón Bolívar. “Se ofereceu aos nossos olhos com bastante majestade”.


Não foi elogio pequeno, partindo, especialmente, de um europeu culto, viajado, e procedente de uma Paris que, naquele tempo, alcançava seu máximo esplendor.


Efetivamente limpa (para o cronista colonial Oviedo e Baños, as ruas caraquenhas “não mantinham pó, nem permitiam lodo”), ela possuía, entretanto, cerca de 35 mil habitantes, apenas, pequena quantidade para os padrões das cidades européias. E quase todos os seus prédios eram de planta baixa.


De onde viria, então, a “majestade” de Caracas?


Provavelmente, de dois aspectos, segundo o historiador venezuelano Augusto Mijares: do excepcional florescimento logrado pela cultura criolla e caraquenha, e da beleza da natureza circundante.


Próximo à linha do Equador, mas a 900 metros sobre o nível do mar, o vale de Caracas reunia a opulência da natureza tropical, de flora e fauna riquíssimas, com o clima fresco das montanhas.


“Mais que um vale, é uma réplica – uma bacia florida – do maciço montanhoso que o protege, o qual se levanta ao norte da cidade, separando-a do mar, até 2.600 metros de altitude na Cadeia de Ávila; e ao sul se estende em numerosos e pouco elevados cumes, entre os quais a vista parece que desliza até a região dos Llanos e as ribeiras dos grandes rios”, escreveu Mijares.


Para ele, Segur deve ter apreciado o vento leste, tão querido dos caraquenhos: seco, porém carregado com os perfumes que ia juntando pelo caminho entre os cafezais, os canaviais, e os laranjais que se estendiam por mais de duas léguas nessa parte do vale.


O francês certamente se encantou com a beleza do rio Guaire, que limitava a cidade pelo sul; e a dos três riachos que a cruzavam até se despejarem nele, vindos dos norte, trazendo águas limpas e frias das montanhas para alimentar as fontes públicas e regar os jardins das casas, e cujas margens eram repletas de árvores frutíferas.


Sem dúvida, ele também se impressionou com a grandeza do Ávila, a montanha que é o orgulho dos caraquenhos, erguendo-se imponente, ao lado dela, com o topo circundado pelas nuvens.


Para Abreu e Lima, que conheceu Caracas quatro décadas depois, a impressão não foi, certamente, a mesma – pelo menos, no aspecto arquitetônico. A cidade praticamente fora ao chão no grande terremoto de 1812, a seguir atravessara mais de dez anos de guerra ininterrupta, e seus habitantes não haviam logrado recuperá-la.


Ainda assim, ela não perdera o seu charme, conforme atestou outro viajante francês, Martin Maillefer, que lá esteve em 1827: “Os estrangeiros e os próprios americanos a consideram a cidade mais agradável e mais européia de todo o continente meridional. Por vários anos a guerra civil continuou os estragos feitos pela natureza. Os espanhóis faziam guerra a muerte não apenas aos homens como também aos rebanhos e às árvores”.


“A duras penas escapados do tremor de terra”, Maillefer acrescentou, “os restos da população de Caracas se viram obrigados a fugir de seus lares para escapar de um inimigo ainda mais implacável que os seus vulcões. Hoje, quando mais de um terço do casario ainda está em ruínas, e as feridas de guerra bem distantes de cicatrizar, a sombra da antiga Caracas ainda vale mais que a maioria das cidades do Novo Mundo: a amenidade dos costumes, o gosto pelas artes, a devoção consciente à causa da Liberdade, um clima delicioso e o encanto das ruínas, imprimem a essa capital uma peculiar fisionomia que se grava profundamente na alma do viajante”.