O Libertador das Américas


Simón Bolívar

O maior de todos os americanos, de quem Abreu e Lima se tornaria amigo e auxiliar fiel, nasceu em Caracas, no dia 24 de julho de 1783, de famílias tradicionais por parte de pai e de mãe.


Do lado paterno, os Bolívar estavam nas Américas desde o século XVI, quando Don Simón, “o velho” cruzou a Atlântico, vindo do País Basco. O lado materno, dos Palácios, não era menos tradicional.


Seu nome de batismo completo, Simón Antônio de la Santíssima Trinidad Bolívar y Casas y Palácios, por si só já atesta essa “fidalguia”.


Ainda crianças, o pequeno Simón e seus irmãos, Juan Vicente e Maria Antônia, perderam os pais, ambos levados pela tuberculose. O futuro Libertador seria criado pelos tios e teria como primeiro professor Simón Rodrigues, que exerceria grande influência sobre ele.


"Você formou meu coração para a liberdade, para a justiça, para o grande e para o belo”, ele escreveria a seu antigo mestre, em carta datada de 1824.


Em 1799, Bolívar foi pela primeira vez à Espanha, onde ficou sob a tutela do sábio Marquês de Ustáriz, seu mentor intelectual. Lá estudou literatura, francês, história e matemáticas, além de esgrima e dança, e pôde frequentar tertúlias e salões na Corte, que lhe conferiram desembaraço em sociedade.


Lá também conheceu Maria Teresa Rodríguez del Toro y Alaiza, jovem vascaína com antepassados venezuelanos, pela qual se enamorou e tornou-se, para ele, "o doce feitiço da minha alma".


Casaram-se, então, e foram viver em Caracas, onde chegaram em julho de 1802. Mas, em janeiro do ano seguinte a felicidade de Simón acabaria: Maria Teresa seria levada pela febre.


"Perdi, com ela, uma vida de doçuras, e a dor não me deixava um só instante de consolo", ele escreveu a um amigo que morava na França.


O jovem viúvo retornou, então, à Europa. Lá assistiu à sagração de Napoleão como imperador, em Paris, e reencontrou seu mestre e amigo Simón Rodrigues, com quem viajou a pé através da Itália. E em companhia dele, sobre o Monte Palatino, em Roma, jurou tornar-se para sempre um defensor da Justiça e da Liberdade.


A perdida paixão amorosa fora trocada por outra: a política.


Quando, em 1810, a Venezuela proclamou a independência, assim como várias outras nações americanas, Simón Bolívar tinha 27 anos e estava pronto para começar uma trajetória que inscreveria seu nome ao lado dos de César, Napoleão e Alexandre, ou seja, entre os maiores condutores de homens que a História já registrou.


Com duas grandes distinções.


Todos aqueles outros personagens tinham o poder de mando como seu maior objeto de desvelo. Bolívar, pelo contrário, sempre pelejou pela construção da democracia, e se submeteu às ordens de assembléias, a maioria delas convocadas por ele mesmo, e que, frequentemente, tomavam decisões opostas à sua vontade.


Mesmo assim, a coroa, várias vezes a ele oferecida, foi sempre recusada: “Eu não sou Napoleão, nem quero sê-lo. O título de Libertador é superior a todos que o orgulho humano já recebeu, portanto é impossível degradá-lo”.


Além disso, César tinha Roma atrás de si. Napoleão, a França. Alexandre herdara a máquina militar criada por seu pai, Felipe. Mas o venezuelano partiu do nada para realizar o tremendo feito de arrancar metade da América do Sul das garras da Espanha.


Filho criado sem mãe. “Prole sine mater creatam”.


Derrotada a Primeira República venezuelana, Bolívar exilou-se em Nova Granada; e na cidade litorânea de Cartagena das Índias, em 1812, escreveu o primeiro dos seus grandes documentos políticos, o “Manifesto de Cartagena”. Nele são apontadas as causas da queda da revolução em seu país, sendo a maior delas a contradição entre a realidade social e o sistema de governo adotado pelos insurgentes.


Do seu ponto de vista, à exceção de uma pequena elite, a grande maioria dos americanos ainda seria crédula e inexperiente, “um composto de África e América, que pertencia a uma família humana incapaz de ser determinada”, muito distinta dos europeus e dos americanos do norte. Alcançada a independência, como aplicar aqui, então, sem tirar nem pôr, sistemas políticos feitos à medida para outros povos?


Uma grande tolerância, um liberalismo completo, para ele, só seria possível mais adiante, na medida em que uma instrução pública, gratuita e maciça, promovida pelo governo, apresentasse resultados.


Essas ideias – que poderiam, perfeitamente, ser de novo postas em discussão nos dias hoje – ele sustentaria até o final dos seus dias.


Em 1813 Bolívar voltou ao seu país à frente de uma pequena tropa. E em poucos meses, numa campanha militar tão bem sucedida que foi apelidada de “Admirável”, retomou Caracas.


À míngua de recursos militares, econômicos e políticos, entretanto, a Segunda República venezuelana não se manteria por muito tempo, e ele se veria obrigado a comandar uma retirada em massa dos caraquenses, que temiam a violência dos exércitos inimigos.


Foram-se cerca de vinte mil pessoas, inclusive velhos, mulheres e crianças, marchando léguas e léguas pelos sertões adentro, rotas, famintas, a cavalo algumas, a maioria a pé, com Bolívar a guiá-las, no papel de Moisés sacando os hebreus do Egito, e as tropas do faraó no seu encalço.


De volta à Nova Granada, em 1814 ele propôs a abolição total da escravatura, mas ela foi recusada.


Em 1816, os neogranadinos, que negaram a liberdade aos cativos, também perderam a sua própria ante os espanhóis, e a resistência patriótica ficaria restrita às guerrilhas nas montanhas andinas, nas selvas amazônicas e nas grandes planícies pantanosas chamadas de llanos.


No continente inteiro, nessa época, apenas a província do Rio da Prata – englobando os atuais Uruguai, Paraguai e Argentina – conseguia, a duras penas, se manter autônoma.


Em 1818 a cidade de Angostura, em meio à selva amazônica, à margem do rio Orenoco, caiu em poder dos revolucionários, e Bolívar a transformou no seu quartel-general. Lá o jovem capitão Abreu e Lima arribou, no início de do ano de 1820, e se engajou no exército bolivariano. E lá foi realizado o congresso que determinou a criação da Terceira República venezuelana, num momento particularmente difícil para os revolucionários.


Se, no plano interno, a situação era ruim, a conjuntura internacional também não estava nada favorável. Restabelecida a paz na Europa, após a derrota de Napoleão, a Espanha pressionava os impérios da Santa Aliança –– Rússia, Áustria e Prússia –– para que a apoiassem numa intervenção contra os patriotas americanos.


Como resposta, Bolívar lançou uma proclamação, declarando solenemente que a Venezuela e seu povo “não aceitariam nenhuma mediação ou intervenção externa alguma que não implicasse no reconhecimento da sua soberania e independência plenas”. Caso contrário, “sepultariam o país inteiro em meio às suas ruínas”.


Ou seja, enfiado no meio da selva, sem dinheiro, sem tropas regulares, quase sem território, dependendo de corsários para fazer às vezes de marinha, com um mísero jornalzinho – o Correio do Orenoco, do qual Abreu e Lima foi colaborador – lhe servindo de porta-voz, Simón Bolívar desafiava a Espanha, a Europa, e o mundo inteiro. E venceria o desafio.


Mas perderia no Congresso de Angostura, convocado por ele mesmo.


Suas propostas de educação popular em massa e de criação de um Poder Moral, que fiscalizaria os demais, assim como de hereditariedade no Senado, foram recusadas.


“Moral e educação são as primeiras necessidades” pregava Bolívar, como bases de sustentação para uma República. Mas muitos deputados, “pela esquerda”, temiam que houvesse doutrinação e manipulação da opinião pública pelo governo; e, “pela direita”, compreendiam perfeitamente que as elites perderiam seu poder de influência sob rigorosa fiscalização e ante uma massa educada e politizada.


Em Angostura já estavam colocadas as divergências que mais adiante derrotariam Bolívar politicamente, depois de vencer pelas armas o inimigo estrangeiro.


No início de 1820 ele partiu em campanha militar, na qual Abreu e Lima seguiu engajado. À frente de uma pequena tropa, com um exército espanhol no seu encalço, atravessou a selva amazônica, cruzou as imensas extensões pantanosas dos llanos, subiu os Andes e expulsou os espanhóis de Bogotá, libertando Nova Granada pela segunda vez.


Em seguida libertou a Venezuela, Quito e o Peru, completando, em 1824, o trabalho de fazer independente toda a América do Sul.


Em 1826, promoveu o Congresso Anfictiônico do Panamá, a primeira tentativa de criar uma Liga das Nações americana. Mas o cerco interno contra ele já começara.


Os interesses contrariados pelas suas propostas de reformas sociais, e as divergências entre os povos que pretendia unir em grandes nações e federações – principalmente entre os neogranadinos, atuais colombianos, e os venezuelanos –, conseguiriam derrotá-lo.


Depois de sofrer terríveis campanhas difamatórias, de escapar de uma tentativa de assassinato, em 1828, e de ver o homem que ele considerava seu sucessor, Antonio de Sucre, ser vitimado por uma emboscada, em 1830, Simón Bolívar resolveu partir para o exílio, na Europa. Mas morreria antes de embarcar, aos 48 anos de idade, vitimado pela tuberculose que também levara os seus pais.


Abreu e Lima, que ao lado ao seu lutara e fora ferido em inúmeras batalhas; que usara a pena em sua defesa, escrevendo no Correio do Orenoco, em Angostura, no Courrier Français, em Paris, e n´A Torre de Babel em Cartagena; também acompanharia passo a passo – de Bogotá, sobre os Andes, a Santa Marta, às bordas do Caribe – inclusive como responsável pela cobertura militar, a última jornada do Libertador das Américas.