Uma nação dividida

Acordo de Ayachucho
Abreu e Lima chegou ao Peru em 1823, acompanhando Bolívar, e encontrou uma nação ameaçada pelo poderio espanhol e politicamente dividida entre o Congresso Nacional e o presidente Riva-Aguero.
Devido às divergências, o presidente havia dissolvido arbitrariamente o Congresso por meio de um decreto declarando aquele órgão não apenas inútil, mas também prejudicial, nas circunstâncias de momento. Este, por sua vez, reunido em Lima, declarara vaga a presidência, e para ela nomeara José Bernardo Tagle.
Baseado em Trujillo e apoiado em tropas sob seu comando, Riva-Aguero proclamara guerra contra o Congresso, que convidara o Libertador para ir até lá por fim às desavenças e expulsar os godos, como também eram chamados os espanhóis.
A nação peruana estava em situação deplorável, desmoralizada e sem recursos, devido aos conflitos e às divisões internas. E os europeus, além de dispor de um exército muito bem preparado, ainda contavam com bastante apoio, não só entre setores das elites locais, mas no próprio povo, cansado das desordens após a proclamação de independência.
Licenciado da presidência da Colômbia para cumprir aquela tarefa, Bolívar possuía forças reduzidíssimas ao seu comando. E ao pressionar Riva-Aguero pela unidade patriótica, fez com que ele, em vez disso, buscasse formar uma aliança com os próprios godos.
Em tais circunstâncias, contudo, o coronel Antonio Gutiérrez de Fuentes, até então comandado de Riva-Aguero, prendeu seu chefe e submeteu-se às ordens do Libertador.
Ainda assim, as forças peruanas ainda eram mínimas; as traições, constantes; e os pedidos do Libertador para que Nova Granada lhe enviasse tropas e recursos esbarravam na relutância do vice-presidente Francisco Santander e dos demais governantes colombianos.
Nem todos, como Bolívar – ou melhor, muito poucos, além dele – pensavam em uma América unida, onde o bem comum estava acima dos interesses particulares de cada nação.
Mas o “Homem das Dificuldades”, a quem fora encomendado serviço de expulsar do Peru um exército invicto de vinte mil homens, sem lhe dar mínimas condições para tal, não se deixava abater.
Por essa época, seu amigo Joaquín Mosquera o encontrou num pobre povoado chamado Patavilca, seriamente doente, com febre alta, resultante de uma infecção intestinal. Ele estava “sentado num banquinho de couro, recostado contra a parede de um quartinho, com um lenço amarrado na cabeça, as calças arregaçadas deixando ver os joelhos ponteagudos e as pernas descarnadas, a voz oca e débil, o semblante cadavérico".
Tentando disfarçar o espanto e a tristeza por vê-lo em situação tão miserável, Mosquera perguntou-lhe o que pretendia fazer. “Triunfar”, foi a resposta. E como faria isso? “Dei ordens para levantar uma forte cavalaria, mandei fabricar ferraduras e que fossem requisitados para o serviço militar todos os bons cavalos desse país, e toda a alfafa que houver, para mantê-los bem alimentados. Assim que recuperar as minhas forças, irei a Trujillo. Se os espanhóis que estão em Jauja descerem a cordilheira para me pegar, eu os derrotarei com essa cavalaria. Se não descerem, dentro de três meses eu terei uma força suficiente para subir, atacá-los e vencê-los".
E assim o fez, mais adiante, com a ajuda do general Antônio de Sucre, que esmagou os inimigos na batalha de Ayacucho.
O Peru foi libertado.
A região mais ao sul do antigo vice-reino peruano, conhecida como “Alto Peru”, por várias circunstâncias acabou se separando e formando uma nova nação. Seus dirigentes batizaram-na de Bolívia, e pediram ao Libertador para escrever aquela que seria a sua primeira constituição.