Lima suntuosa


Catedral limenha

Verdadeira metrópole sul-americana, a capital peruana que Abreu e Lima conheceu tinha cerca de oitenta mil habitantes. Era, portanto, no mínimo duas vezes maior que o Recife, na mesma época.


Fundada por Pizarro, em 1535, possuía uma grande quantidade de formosos monumentos, igrejas e conventos para religiosos de ambos os sexos. As ruas eram largas e calçadas, as casas erguidas em tijolo e adobe e com madeirames pintados em diversas cores.


As águas servidas corriam por canaletas estreitas, como em Bogotá; mas como em Lima nunca cai nem uma gota de chuva, jamais havia problemas de alagamento.


A catedral, magnífica, ocupava todo o lado este da praça principal, com o prédio da municipalidade à frente. Nos dois outros lados havia galerias com arcos, ao longo das quais ficavam as melhores lojas da cidade. No centro da praça, uma fonte soberba. O movimento nessa praça era grande a qualquer hora do dia.


O pernambucano, como outros visitantes, certamente subiu à torre da catedral para ter uma vista do alto; e, como eles, deve ter se decepcionado. Dali, a cidade soberba tinha um péssimo aspecto, pois, pelo fato de nunca chover, grande parte das casas era descoberta, o que lhe conferia, “a vuelo de pájaro”, o aspecto de ruínas. E o barro cinza com que eram erguidas lhe conferia um tom sujo e triste.


Para a francesa Flora Tristán, de inclinações socialistas, assim como Abreu, os monastérios, as numerosas e gigantescas igrejas construídas em pedra contrastavam de uma maneira chocante com a multidão de casinhas pobres. E esse confronto revelava “a falta da harmonia deveria existir na organização deste povo”.


Tristán acreditava que “chegará a época na qual as casas dos cidadãos serão mais formosas e os edifícios religiosos menos suntuosos”.


Abreu e Lima também pensava da mesma maneira.


Por outro lado, ele certamente apreciou a oferta de lazeres culturais como teatros, bibliotecas etc. A capital peruana era a maior urbe americana do seu tempo e também mais sofisticada, já ostentando, inclusive, um “quê” de decadência.


“Em Lima, o que não é corrompido está fora de uso”, dizia-se por lá, na época. Ou, como anotou um cronista: “Lima é uma cidade muito sensual, onde o espírito e a beleza vivem em permanente disputa: é como Paris nos tempos de Luís XV”.


Grande apreciador dos encantos femininos, um dos sítios limenhos que Abreu e Lima frequentou, certamente, foi a igreja de Santa Maria. Não apenas por ser católico, para ouvir cantar os frades e assistir os ofícios divinos, mas também para admirar as mulheres que, na opinião de muitos viajantes, talvez fossem as mais livres do mundo.


Mais altas e vigorosas do que os homens de lá, geralmente muito formosas, em nenhum outro lugar, então, elas exerciam tanto império quanto na capital peruana.


As limenhas eram únicas, conforme anotou a francesa Flora Tristán, a começar pelo modo como se vestiam. Sua indumentária típica, a saya, compunha-se apenas de uma saia e de um manto envolvendo os ombros, os braços e a cabeça. Nada tinha ver com os vestidos espanhóis e não se encontrava nada semelhante em nenhuma parte das Américas.


“Um grande número de estrangeiros me falou do efeito mágico produzido, na sua imaginação, pela visão daquelas mulheres”, escreveu Tristán, que lá esteve poucos anos depois do pernambucano. “Uma ambição de aventuras os fazia afrontar mil perigos na crença de que a fortuna os aguardava naquelas plagas distantes (...). Achavam que, para ressarci-los dos penosos sofrimentos de uma travessia tão longa, e para recompensar seu valor, Deus os havia feito desembarcar num país encantado”.