Um país especial


Balcões em Lima

O Peru visitado por Abreu e Lima tinha características culturais bem particulares, diversas das que ele encontrou em outras regiões por ele percorridas, e muito mais, ainda, das do seu Pernambuco natal.


No Peru se verificara o encontro da civilização espanhola, no auge da sua grandeza, com algumas das nações indígenas americanas mais evoluídas.


Pizarro, seu conquistador, lá esbarrara com vários povos em adiantado estágio civilizatório, sob domínio dos incas que – à moda da antiga Roma – exerciam seu império através de um exército poderoso, de uma rede de estradas que permitia o rápido deslocamento dessa força para qualquer parte onde houvesse ameaça de sublevação, e de uma administração pública eficiente.


Para submeter aquelas nações e explorar as imensas riquezas dos seus territórios, pródigos em metais preciosos, os europeus tiveram de não apenas lançar mão da sua superioridade militar e organizativa, quanto tentaram erradicar as culturas nativas.


A seu favor, eles encontraram algumas características similares nas suas civilizações.


Tão diferentes como seres oriundos de planetas distantes, espanhóis e ameríndios peruanos comungavam, entretanto, de uma profunda religiosidade, do amor à grandeza, e do apego aos ritos, à solenidade, ao conservadorismo e à rigidez, típicos de sociedades extremamente hierarquizadas e estratificadas.


Mesmo assim, as raízes americanas, lá, são tão poderosas que essa “europeização” jamais seria conseguida, apesar dos intensos esforços despendidos, principalmente, pelos padres.


O melhor exemplo do trabalho de catequese espanhol – assim como do amálgama surgido entre as duas culturas, até onde houve algum amálgama – talvez seja a pintura “cusquenha”, que o capitão Abreu e Lima apreciou nas igrejas peruanas.


Considerando que as imagens eram um excelente meio de transmitir o catolicismo, foram enviados ao Peru muitos religiosos artistas, coma missão de ensinar a jovens índios e mestiços as artes do desenho e da pintura a óleo.


O termo "cusquenho" tem origem na cidade de Cuzco, antiga capital do Império Inca, onde surgiu a primeira “escola” de pintura Novo Mundo, embora centros semelhantes tenham sido criados em outras regiões do Peru.


Os temas das pinturas ali produzidas eram sempre bíblicos, tais como a glorificação de Jesus, da Virgem Maria e dos santos, o Juízo Final, os gozos do Paraíso e as chamas do Inferno etc. Os mesmos da tradição pictórica bizantina, assim como da flamenga e da italiana da primeira metade do século XV, cujos maiores expoentes foram Fra Angelico e os mestres de Pisa e de Siena.


Os artistas peruanos, porém, que já tinham sua própria tradição nas artes plásticas, inovaram nessas obras, com uma liberdade desconhecida dos europeus: as paletas eram mais vivas, com destaque para o vermelho, o amarelo e as cores terrosas; os cenários de fundo eram ilustrados com a fauna e flora dos Andes, aos lado dos anjos e arcanjos; a perspectiva era ignorada; os monumento, colunas, cortinas etc., recebiam contornos; e as figuras humanas, por sua vez, eram distorcidas, para conseguir efeitos mais dramáticos, com os santos agigantados e as pessoas comuns reduzidas ao mínimo.


Abreu e Lima, enfim, deparou-se com um país dividido em camadas populares separadas não apenas pela cor da pele e o status social, como no Brasil, na Venezuela etc., mas também por idiomas e complexos costumes milenares.


Uma fascinante mescla que se mantém até hoje.