Uma elite orgulhosa e revoltada

Seminário de Olinda
Ao viajar pelos países de fala espanhola das Américas, Abreu e Lima quase sempre encontrou as elites nativas furiosas com o regime colonial europeu. Em sua província natal, luso-brasileira, dava-se o mesmo.
Os senhores de Pernambuco, aliás, talvez pudessem ser considerados os mais radicais dentre todos os americanos, pelo fato de já em 1710, em Olinda, terem proclamado a independência e a república, e sustentado uma luta de mais de ano contra a coroa portuguesa, na chamada “Guerra dos Mascates”.
“De cada dez filhos das boas famílias, nove são adeptos dos mistérios da Democracia”, escreveu um cronista da época sobre a geração de Abreu e Lima.
Toda esta revolta se devia, em primeiro lugar, a motivos econômicos: à exploração desenfreada, através dos altos impostos cobrados pelos portugueses e do monopólio comercial que exerciam, “chupando a substância” do povo da terra.
Esse antigo problema se agravou ainda mais depois de 1808, com a transferência da Corte, de Lisboa para o Rio de Janeiro.
Para sustentar quinze mil desocupados que atravessaram o Atlântico, fugindo de Napoleão Bonaparte, o Príncipe Regente majorou ainda mais a carga de tributos sobre os brasileiros, e os aplicava sem nenhum critério.
Os recifenses, por exemplo, pagavam uma taxa de iluminação pública que servia para comprar o óleo “de peixe” (baleia) com o qual se clareava, à noite, as ruas... do Rio de Janeiro! E a revolta dos nortistas era ainda maior que a dos sulistas, por estarem longe “do bafo do rei”, como se dizia na época.
Enquanto os favores e privilégios concedidos pelo Príncipe enriqueciam alguns proprietários, comerciantes e burocratas do sul, os habitantes das regiões distantes da Corte, como Pernambuco, não se beneficiavam com a sua presença no País, embora fossem obrigados a sustentá-la.
E além de explorados economicamente, os brasileiros –– inclusive os da classe privilegiada, como a família Abreu e Lima – sofriam grande discriminação social.
Pejorativamente apelidados de “mazombos”, pelos nascidos na Europa, eles eram tratados “como estrangeiros em seu próprio país, e como macacos, pela plebe, caso fossem à Portugal”, segundo um cronista da época.
Nenhum deles, por exemplo, era chamado a fazer parte do Conselho de Estado, “nem mesmo um adulador, um parasita, sequer, ao menos para adoçar a boca dos aqui nascidos”, conforme reclamou Hipólito da Costa, no seu Correio Braziliense.
Filho dessa elite orgulhosa e insatisfeita, o futuro general cresceu num ambiente que naturalmente o impeliu para o caminho da revolução.