Tempo de mudanças

Recife visto do Alto da Sé de Olinda
No raiar do século XIX o mundo estava em rápida transformação. No Brasil, essas mudanças se aceleraram ainda mais depois da transferência da Corte para o Rio de Janeiro, com a consequente abertura dos portos para naus não portuguesas, e das fronteiras aos viajantes de outras nações.
A convivência com os estrangeiros ajudou a abrir olhos fechados há séculos. Muitos brasileiros passaram a perceber a importância do seu país e a despertar para a atividade política.
Refletindo a evolução política, e acompanhando a chegada de um grande volume – em quantidade e diversidade – de novos objetos de consumo, os costumes também mudaram bastante durante a primeira juventude de Abreu e Lima.
Ao menos, entre as classes mais afortunadas; e, principalmente, nos aspectos exteriores e superficiais.
Se até o século anterior, por exemplo, o único luxo exibido pelas famílias eram as baixelas de prata, a riqueza agora fazia questão de se mostrar, também, nas novas vestimentas e na decoração das casas.
Os casacões, calções de seda, sapatões de fivela de prata, bastão com cabo de ouro, chapéus tricórnios e lacinhos no cabelo foram abandonados pelos senhores do século XIX, que passaram a se vestir à inglesa, com casacas de casimira, calças de nanquim, meias botas e chapéus redondos.
As mulheres, por sua vez, trocaram o cetim e o algodão pelos novos tecidos de Manchester, e as famílias abastadas do Recife começaram a erguer residências de verão às margens do Capibaribe, em Ponte d’Uchôa, Monteiro, em Casa Forte e no Poço da Panela. Todas com alpendres, jardins, vidros nas janelas, balcões de ferro gradeados e alcatifas, coisas que antes não se viam nas rústicas vivendas dos tempos coloniais.
Os preconceitos, entretanto, permaneceram os mesmos; a vida social continuou a girar apenas em torno da festas religiosas; e o banho não deixou de ser a maior diversão popular, nas águas, então limpíssimas, dos rios pernambucanos.
A falta de instrução generalizada também se manteve, pois, para os monarquistas absolutistas portugueses “um bando de iletrados vale muito mais que uma chusma de semi-iletrados, propensos ao individualismo e prontos a se destruir pela divisão feroz do seu egoísmo incoerente”. E o melhor era “um povo analfabeto, mas com bom-senso, proveniente da educação moral”.
Os filhos das classes abastadas, porém, tinham acesso ao conhecimento. Pelo menos, em Pernambuco, conforme atestou o próprio Abreu e Lima, ao escrever: “Recebi uma educação de príncipe, a melhor que se poderia ter no País”.
Mesmo antes da abertura dos portos, em 1808, a sua capitania natal já se constituía no centro intelectual mais avançado do Brasil, devido à atuação do Seminário de Olinda, criado, em 1800, pelo educador e cientista bispo Azeredo Coutinho.
Essa instituição, ao nível dos melhores liceus da França, em sua época, não era apenas “um viveiro de padres”, pois também formava jovens leigos.
Foram as gerações de estudantes que por lá passaram até o Seminário ser fechado, após a Revolução de 1817 – entre elas, a de Abreu e Lima –, que lideraram os vários movimentos de rebeldia pernambucanos da primeira metade do século XIX, contra o poder instalado no Rio de Janeiro e sempre a favor dos princípios da democracia e da igualdade social.
Vivia-se, então, sob a influência do pensamento iluminista; ou, para os realistas “das infames ideias francesas”.
Três em cada quatro dos poucos livros que clandestinamente circulavam no Brasil, aliás, eram escritos em francês.
Orientado pelos mestres do Seminário de Olinda e da maçonaria, da qual também fez parte, levado pelo pai, o jovem José Inácio cultivou seu espírito. Tal como a maioria dos filhos das elites americanas do seu tempo, ele leu A Nova Heloísa, de Rousseau; As Ruínas de Palmira, de Volney; a Enciclopédia de Diderot e d’Alembert; o Elogio da Loucura, de Erasmo; e as sátiras de Voltaire, Corneille e Moliére.
Também conheceu as doutrinas de Raynal, Montesquieu, Genovese, Locke, Benjamin Costant, Blackstone, Grócio, Puffendorf, Marmontel, Mably, Fontenelle, Helvetius e do abade Pluquet; e as obras científicas de Bacon, Descartes, Leibniz, Lineu, Buffon e Lavoisier, assim como tratados econômicos de Adam Smith.
De volta ao Brasil, contudo, após sua epopéia em terras colombianas, o general encontrou outro quadro, muito distinto.
Sufocado pelo conservadorismo português e pela repressão política, estes ensaios de florescimento intelectual em terras brasileiras haviam sido abortados.
O Seminário de Olinda, por exemplo, fora fechado após a Revolução de 1817. Reaberto depois da Independência, em 1822, ele perdera o ímpeto e a importância iniciais.
Abreu e Lima se tornou, então, um critico feroz do despreparo que, em sua opinião, os brasileiros recebêramos como legado de Portugal, culpando-o pela nossa carência de grandes homens públicos.
“Se perguntarmos à Europa inteira que ideia faz da literatura portuguesa” – ele escreveu –, “ela responderá que conhece Camões, sem dúvida um colosso, o Homero dos tempos modernos. Talvez cite, ainda, Bocage e o Abade Serra, e mais ninguém. Aliás, não se sabe por que fatalidade os lusitanos ilustrados nunca se dedicaram a escrever obras de qualidade em outros gêneros, à exceção da poesia. Quanto às matérias abstratas, positivas, experimentais e naturais, o fato é que Portugal deu passo a outros países, ficando estacionário”.
E o mais espantoso para o general era que, mesmo sem cultivo algum – pelo contrário, debaixo de censura e repressão terríveis! – tivessem brotado, espontaneamente, por aqui, meia dúzia de cabeças pensantes!