Uma batalha decisiva

A carga do coronel Rondón
O duríssimo confronto do pântano de Vargas, nas cercanias de Bogotá, embora não seja considerado um marco entre as centenas de batalha travadas pelas forças republicanas e realistas na América Hispânica, foi, certamente, um dos mais relevantes. Caso os revolucionários tivessem sido nele derrotados – e estiveram muito perto disso – perderiam todo o trabalho já realizado em uma longa e difícil campanha que culminaria com a libertação de Nova Granada.
Um dos heróis de Vargas, Abreu e Lima lá também esteve muito perto de perder a vida.
No mês de março de 1820, Bolívar partira de Angostura, na Venezuela, à frente de um pequeno exército de menos de dois mil homens, com o jovem capitão pernambucano engajado na função de auxiliar do Estado-Maior. E cumpriria uma jornada que entraria para a História como um dos maiores feitos militares por ela registrados.
As tropas do Libertador cruzaram a Amazônia em direção oeste, subindo o rio Orenoco até onde ele era navegável; depois, a pé, atravessaram os llanos, uma extensa região pantanosa, com um exército espanhol, duas vezes mais poderoso, nos seus calcanhares; e, finalmente, escalaram a cordilheira dos Andes, numa epopéia frequentemente comparada à travessia dos Alpes pelo cartaginês Aníbal, em sua marcha contra Roma.
Mal alimentados, sem vestimentas adequadas contra o frio extremo, vindos das planícies ao nível do mar, portanto desabituados ao soroche, o mal provocado pela falta de oxigênio, em alturas que às vezes ultrapassavam os quatro mil metros, metade daqueles homens ficou pelo caminho. E que os chegaram ao altiplano boyacaense – uma planície a 2.700 metros de altitude, onde foi erguida Santa Fé de Bogotá – estavam nus, famintos, doentes e desarmados, para lá enfrentar a Terceira Divisão, tropa muitíssimo bem treinada e equipada, uma das melhores de Espanha.
A primeira preocupação de Bolívar, é claro, foi descansar, alimentar, vestir e rearmar seus soldados, com ajuda da população local; evitando, até onde fosse possível, confrontos com os espanhóis.
Até que ocorreu o inevitável.
Às onze horas da manhã do dia 25 de julho de 1820, os realistas, comandados pelo general Barreiro, muito superiores em número e em equipamentos, os surpreenderam no caminho de Salitre de Paipa.
A situação se tornou desesperadora, rapidamente. O inimigo ocupava algumas lomas – elevações no terreno – e não lhes deixava saída a não ser através de um desfiladeiro, onde seriam dizimados, se lá entrassem. O que provavelmente teria acontecido se Bolívar não lançasse mão de uma estratégia surpreendente.
O melhor corpo do exército patriota era a cavalaria llanera; que, entretanto, chegara ao altiplano desmontada, e ainda estava longe de se recuperar completamente. Ele então a colocou na retaguarda, em vez de despachá-la para os primeiros embates, segundo rezavam todas as cartilhas militares da época. E também deixou na reserva sua melhor infantaria, um batalhão formado por ingleses.
Ao restante dos mal armados infantes – metade deles recém-recrutados, ou seja, sem quase nenhum treinamento – e à desfalcada artilharia coube suportar a carga inicial da Terceira Divisão.
Quando os espanhóis já estavam certos da vitória, a Legião Britânica entrou na luta, sob as ordens do coronel James Rooke – um terço dessa tropa cairia no embate, inclusive seu comandante, que teve a barriga trespassada por uma bala de mosquete. Porém, o avanço dos godos foi estancado.
Bolívar, então, chamou o coronel Rondon, comandante do esquadrão de cavalaria Llano Arriba e ordenou, com uma frase que ficaria famosa: “Coronel, vá e salve a Pátria!...”. E Rondon, por um lado, e o negro Leonardo Infante, com seus Guias, pelo outro, dispersaram completamente o inimigo.
“E Rondon ainda nem entrou na batalha...” tornou-se, por lá, expressão corriqueira.