O "coração" continental


Casario em Cartagena, Colômbia

O capitão Abreu e Lima, ao desembarcar no vice-reino espanhol de Nova Granada, o encontrou divido em três departamentos: Venezuela, Quito e Cundinamarca. Esta última, que compreendia a Colômbia e o Panamá de hoje, costumava ser também chamada de Nova Granada.


Muito rica, em função da sua economia diversificada, baseada tanto na mineração quanto na agricultura, e bastante habitada já no início do século XIX, com dois milhões e meio de almas, muitos a consideravam “o coração” da América do Sul hispânica.


Tal como na vizinha Venezuela, no território da Cundinamarca se encontram três tipos principais de ecossistemas: o amazônico, quente, úmido, chuvoso, coberto de densas florestas e cortado por rios caudalosos; o das planícies pantanosas chamadas de llanos, secas no verão, alagadas no inverno; e o montanhoso, de clima seco e temperado.


Dois ramos da cadeia do Andes lá seguem paralelos, de norte a sul: a cordilheira Ocidental, acompanhando o litoral do oceano Pacífico; e a Oriental, no centro do país; com o grande rio Madalena correndo pelo vale formado entre elas.


Nesta segunda cordilheira, a dois mil e setecentos metros de altitude, fica o altiplano boyacaense, ou vale do Sogamoso, onde foi erguida Santa Fé de Bogotá: uma região que encantava os visitantes, como o futuro general, que lá chegou, pela primeira vez, em 1820.


Embora situada na linha dos trópicos, ela possui clima temperado, devido à altitude, e apresentava, então, extensos pastos verdejantes, com grandes manadas de vacas e carneiros e vastos campos de trigo, milho e aveia.


Os seus vales, como os Yungas, de Guaduas e de Moka, possuem terras entre as mais privilegiadas do mundo para o cultivo do café. E as frutas e os legumes lá experimentados por Abreu e Lima vinham do altiplano, das montanhas em torno e dos vales abaixo delas; ou seja, de vários tipos diferentes de terrenos e de climas, porém próximos entre si.


Nas regiões mais altas, por exemplo, os agricultores plantavam peras, maçãs, uvas e muitas outras frutas típicas do frio; e, nas baixas, laranjas, mangas, abacates, bananas etc.


Dentre todas elas, o pernambucano deve ter se deliciado mais com uma, por fora parecida com um melão verde, e uma polpa branca e suave por dentro, a respeito da qual disse o Barão Humboldt, grande cientista que lá esteve no início daquele século: “Valeria a pena uma viagem à América do Sul apenas para comer chirimoya!”.


Mais ao norte de Bogotá, ainda sobre a cordilheira, estava a importante cidade de Cúcuta, por onde passava a maior parte tráfego de viajantes e de mercadorias entre o litoral e a capital.


Devido à sua localização e características, Cúcuta foi escolhida por Bolívar como a capital da República da Grã-Colômbia, e lá foi realizado o seu congresso de fundação, em 1821.


Já o principal porto neogranadino era Barranquilla, ao norte de Cúcuta.


Essa vila, que teria umas dez mil almas, na época, fica à beira mar, junto a um dos braços – ou caños, como lá são chamados – do estuário do grande rio Madalena.


Muito diferentemente das anteriores, o aspecto geral dessa povoação provavelmente lembrou, a Abreu e Lima, a África, onde estivera há poucos anos. A maioria das casas tinha teto da palha, e o piso das ruas era de uma areia branca e finíssima, que a brisa do mar levantava em torvelinhos.


O calor era terrível, e por causa dele, das nove da manhã às cinco da tarde circulava-se o mínimo possível. Quem tinha recursos só andava de carro coberto, e os pobres montados nuns jumentinhos minúsculos.


Todos os visitantes queixavam-se da temperatura excessivamente alta, que os enervava e reduzia a um estado de prostração. Para a maioria os europeus e seus descendentes, era muito difícil prosperar trabalhando e vivendo em regiões como aquela, o estuário do rio Madalena, ao desembocar no Caribe.


Entretanto, ela os fazia compreender um aparente absurdo: porque a civilização, na Cundinamarca, concentrara-se sobre as montanhas, em cidades erguidas a três mil metros de altitude e a trezentas léguas do litoral.