Um "entendimento bem iluminado"


"Filósofos" Rousseau e Voltaire

As principais cidades do vice-reino espanhol de Nova Granada, como Cúcuta e Bogotá, foram erguidas a centenas de léguas do litoral e à grande altitude, sobre a cordilheira andina, sendo o acesso a elas muito difícil, através de pasos quase intransitáveis nas montanhas. Certos trechos, nem as mulas conseguiam transitar, e todo o transporte – tanto de mercadoria quanto de pessoas! – era feito nas costas dos índios.


Entretanto, estas cidades possuíam uma vida cultural popular e erudita tão intensa que espantava os visitantes.


Seu povo era festivo, dançava bem, e tinha excelente ouvido musical. Muitas famílias possuíam pianos, inclusive algumas bastante humildes.


Elas faziam qualquer sacrifício para comprar um instrumento desses, que deveria ser mais caro, ali, do que na maior parte do planeta, considerando o custo do frete: primeiramente, vindo de navio da fábrica, na França, até Barranquilla, nas costas do país; depois, subindo de barco o rio Madalena, através da selva amazônica, até o sopé dos Andes; e, finalmente, carregado sobre os ombros indígenas, montanha acima.


A música nacional era o bambuco, uma melodia bela e triste que combinava a paixão espanhola com a melancolia andina: de noite, nos bairros pobres, o povo se juntava para cantá-lo em coro.


Outro romântico costume muito apreciado era o das serenatas.


Os estrangeiros também assinalavam a vivacidade das conversações, o senso de humor daquela gente, e a facilidade com que faziam versos.


O fato de o pernambucano Natividade Saldanha – exilado após a Confederação do Equador, em 1825, e lá recebido por Abreu e Lima – haver se tornado rapidamente um nome de destaque nas letras bogotanas, diz muito do seu valor como poeta.


No campo erudito, a riqueza das minas de prata da Nova Granada permitira a formação de corpos de letrados, defensores das ideias iluministas e também amantes das artes, tal como a riqueza gerada pelo açúcar permitira o mesmo, em Pernambuco.


Com uma vantagem para os neogranadinos: a corte espanhola era mais esclarecida que a portuguesa.


Em meados do século XVIII, por exemplo, um médico neogranadino, José Celestino Mutis, professor no Colégio do Rosário, se declarava adepto do “entendimento bem iluminado”, e a favor das “proposições que custaram caro, em outros tempos, ao famoso Galileu”.


O reitor da Universidade Tomística, dirigida pelos dominicanos, protestou, então, junto ao rei Carlos III. O Monarca, entretanto, liberou ensino das teorias de Newton, e o trabalho pedagógico de Mutiz repercutiria nas gerações seguintes.


Surgiram revistas científicas, o teatro floresceu, e Humboldt, em sua passagem por Nova Granada, no início do século XIX, ficou assombrado de lá encontrar até mesmo observatórios astronômicos.


Abreu e Lima, que lá arribou duas décadas depois, certamente se assombrou, também, com o nível de ilustração atingido pelos neogranadinos.


E no meio do povo verificou grandes diferenças de costumes.


A gente humilde de lá, por exemplo, era ainda mais fanaticamente religioso que a brasileira (em consequencia, talvez, da mescla de radicalismo espanhol e do fatalismo indígena).


Nos dias das grandes festas, por exemplo, as portas das igrejas desde cedo ficavam cercadas por multidões impacientes, à espera que fossem abertas; e, quando isso acontecia entravam todos de uma vez, aos empurrões e cotoveladas, disputando os locais mais próximos do púlpito para melhor ouvirem o pregador.


No seu Pernambuco natal – exceto, talvez, no sertão – o sentimento religioso era bem menos profundo.


Nova Granada, enfim, foi “uma caixa de surpresas” para o futuro general.


A maioria delas, bastante agradável.