Romântica, culta e musical


Plaza Mayor de Bogotá

Como outros visitantes, o futuro general pernambucano se encantou com a cidade de Santa Fé de Bogotá.


A capital do vice-reino espanhol de Nova Granada, atual Colômbia, fora erguida a dois mil e setecentos metros acima do nível do mar, em uma planície circular rodeada de montanhas que lembra um imenso anfiteatro: o altiplano boyacaense, ou vale do Sogamoso.


Teria, então, entre trinta e quarenta mil habitantes, população semelhante à do Recife, na época.


No centro dela estava a Plaza Mayor: uma enorme área quadrada em volta da qual, à moda espanhola, se encontravam os principais prédios públicos, tais com a catedral, o senado e o palácio dos vice-reis.


Desta praça partiam ruas retas, calçadas de pedra, por sua vez recortadas por outras também em ângulos retos, formando um conjunto de cerca de duzentas quadras. No centro de quase todas as ruas passava uma canaleta por onde corria a água fria que descia das montanhas, à qual ia se juntando as águas servidas das moradias.


As casas eram bem parecidas, variando apenas em tamanho. Tinham um ou dois pisos levantados em pedra, com muros caiados de brancos fazendo contraste com os tetos de telha vermelha. As janelas eram grandes, guarnecidas por gelosias de madeira – o vidro ainda era muito raro – e protegidas por grades de ferro.


A catedral, principal edifício da cidade, cuja construção fora concluída em 1814, certamente causou um grande impacto ao jovem capitão pernambucano, da primeira vez que lá esteve, em 1821.


Na opinião de viajantes como o sueco Carl August Gosselman poucas igrejas católicas poderiam comparar-se a ela pelo gosto simples, porém equilibrado, do seu traçado arquitetônico, assim como pela ornamentação interior, pois riqueza não lhe faltava. E no átrio da catedral ficava o altozano, que certamente foi bastante freqüentado por Abreu.


O altozano era uma área livre de apenas uns dez ou quinze metros de largura e uns cinquenta de comprimento, mas certamente se constituía no coração da cidade. Diariamente, das cinco às sete da tarde, ali se reuniam quase todos os notáveis das letras, do comércio e da política; os homens, enfim, que ocupavam as melhores posições sociais na sociedade local.


Naqueles tempos de antes do telégrafo passavam-se dias, às vezes semanas, sem que em Bogotá chegassem notícias do resto do mundo – muito ao contrário do Recife do general, onde quase diariamente arribavam navios de distintos continentes –; e dos sucessos do momento, os boatos correntes, dos dia-a-dia da política, de tudo, enfim, se tomava conhecimento e se discutia frequentando o altozano.


Uma bolsa de negócios, um círculo literário, um areópago, um clube de solteiros, um fórum: a vida bogotana se expressava naquelas poucas centenas de metros quadrados, cujas pedras que o calçavam muitas vezes foram lavadas com sangue.


Um ajuntamento semelhante, no Recife, seria o quem-me-quer da Ponte da Boa Vista, que certamente também foi frequentado por Abreu e Lima. Mas o movimento por lá tinha objetivos mais “românticos”: à essa mesma hora as moças que não eram “de família” punham-se passear, com seus sapatinhos de cetim, deixando cair distraidamente as luvas para que fossem apanhadas e gentilmente devolvidas pelos cavalheiros...


As mais distintas, é claro, não se exibiam dessa maneira, pois no Brasil daquela época “mulher de família só saía de casa três vezes na vida: para se batizar, casar e ser enterrada”.


Já em Bogotá, assim como em Quito, Caracas, Lima, e em outras grandes cidades hispano-americanas Abreu e Lima conheceu, as mulheres – que até fumavam em público! – gozavam de muito maior liberdade e participavam bem mais da vida social.