Poeta, vanguardista e revolucionário
Que fazer? Não posso ir de encontro à sorte,
quis fazer-me poeta: pois, paciência;
sou poeta, e o serei até a morte.

Natividade Saldanha
Seguindo os passos de José Inácio de Abreu e Lima, exilado após a Revolução de 1817, outros brasileiros buscaram refúgio – além de campo para dar sequência às suas lutas – em terras colombianas.
Todos eles, não por acaso, pernambucanos.
Após a derrota da Confederação do Equador, em 1825, chegaram vários, dentre os quais se destacaram o major Emiliano Munducuru e o advogado e poeta José Natividade Saldanha.
Mundurucu foi major, comandante do Segundo Batalhões de Caçadores da Divisão Republicana de Pernambuco, apelidado de “Montabrechas”. Na Confederação do Equador, recuou com seu batalhão por trezentas léguas, pelo Ceará adentro, até ser feito prisioneiro. Logrou, porém, fugir, e seguiu para o exílio fazendo um trajeto semelhante ao de Abreu e Lima: passou pelos Estados Unidos e pela ilha de São Domingos, até desembarcar na Venezuela, onde desejava alistar-se nas forças bolivarianas. Chegou em estado miserável, sendo no início sustentado “como podia” por Natividade Saldanha, que arribara um pouco antes dele.
Saldanha nascera em 1776, filho de um vigário e de uma parda, e ainda muito jovem fora encaminhado aos estudos, pelo pai, no Seminário de Olinda. De lá seguira para a Universidade de Coimbra, onde, a despeito de grandes dificuldades econômicas, graduara-se bacharel em Direito.
Em Portugal publicara seu primeiro livro, “Poesias oferecidas aos amigos amantes do Brasil”, no ano de 1822. Nele, já superava o neoclassicismo arcádico e caminhava em direção ao romantismo, estilo literário então nascente, associado ao liberalismo político.
De volta a Pernambuco, Saldanha tornara-se secretário na Junta Revolucionária de 1824, fugindo, após o fim do movimento democrático, para os Estados Unidos e depois a Europa.
Para ele mesmo, sua vida “parecia uma novela”: sofrera um terremoto em Olinda e um naufrágio no Canal da Mancha, em frente a Plymouth, na Inglaterra, vindo da França. Quase se afogara e muito penara num hospital londrino.
Finalmente arribou à Venezuela, onde foi recebido por Abreu e Lima, que o apresentou ao general Juan Escalona. De lá se transferiu para Bogotá, onde passou a viver, pobremente, de advogar e de dar aulas, ensinando os clássicos.
Seu amigo venezuelano Juan Francisco Ortiz o descreveria, mais adiante, como “muito moreno, de regular estatura, bem proporcionado e fornido. Tinha os dentes afilados e mesclava palavras portuguesas e francesas em sua linguagem. Era literato e fazia versos com muita facilidade”.
Em pouco tempo, aliás, os versos de Natividade Saldanha o fizeram conhecido em Bogotá, uma cidade de amantes das letras.
Nos seus sonetos encontram-se tanto as preocupações sociais quando o sentimentalismo e o subjetivismo, típicos daquela fase inicial do romantismo.
Como, por exemplo, nos versos de “Falam os condenados” e “Elegia do exílio”, dedicados aos companheiros revolucionários:
Amigos, que vivestes já comigo
recebei minha dor, meus ais, meu pranto.
Oh, feliz se abraçar-vos eu consigo!
E:
Tudo no mundo foge, tudo passa,
ninguém feliz se julgue, ou a ventura
lhe seja liberal, ou seja escassa.
Ou, ainda, em "Aos meu algozes":
Em vão intentas, monstro sanguinário
descarregar sobre mim teu golpe injusto.
Fui condenado à morte? Não me assusto,
não me acovarda o dictum arbitrário.
Perdi a pátria, mas meu lar precário
hoje é coberto pela reta lei de um povo augusto,
e o Rei dos reis, o excelso, o justo
a ti e mim pagará nosso salário.
Junta quantos escravos pisam nossa terra;
chama todas as fúrias do Averno;
tu mesmo ergue-te em mil: nada me aterra.
O ódio que te juro será eterno,
e onde quer que esteja te farei a guerra:
em terra, no mar, no céu e no inferno.
Em Bogotá, Saldanha recebeu carta de um juiz de Pernambuco, intimando-o a lá apresentar-se para receber a pena à qual fora condenado, à revelia: morte por enforcamento.
Ele respondeu com uma procuração ao remetente, autorizando-o a morrer em seu lugar.
Nesta mesma cidade, atuando como advogado, o pernambucano envolveu-se numa polêmica com a Igreja Católica que ficaria famosa, pelejando a favor do direito ao divórcio.
Era tempo de grandes mudanças, novas normas jurídicas e políticas estavam em construção por toda a América Latina e as ideias fervilhavam. Maçons e liberais de um lado, sacerdotes e conservadores do outro, disputavam terreno palmo a palmo: os primeiros tentando separar os papéis da Igreja e Estado; e, os segundos, mantê-los unidos, como tinham estado ao longo dos últimos séculos.
Em 1825, um casal de franceses tentou dissolver seu matrimônio e Natividade Saldanha os representou, buscando argumentos não só no Direito Positivo quanto no Canônico. Do outro lado apresentou-se o eloqüente e virtuoso padre Francisco Margallo, para quem não importava o regime; fosse monarquia ou república, “o verdadeiro culto seria o seu sustentáculo”.
Abreu e Lima também se envolveria em outra célebre disputa com a Igreja, em nome da liberdade religiosa, quatro décadas mais tarde, no Recife, tendo como oponente o bispo Francisco Cardoso Ayres.
Na mesma Bogotá, o poeta Saldanha frequentou a academia “Parnasillo”, usando o pseudônimo de “Josino Pernambucano”. Lá criou amizades com outros literatos, entre os quais Luís Vargas Tejada, o “Euphilo Granadino”, que plagiava seus poemas.
Liberal dos mais exaltados, Tejada acabou se envolvendo no atentado contra a vida de Bolívar, em 1828; e também atacava furiosamente Abreu e Lima, um fiel escudeiro do Libertador.
Enredado, tal como seu conterrâneo general, à contragosto, nas questões políticas internas colombianos, Natividade Saldanha teria seu direito de exercer a advocacia cassado, em 1829, a pretexto de que “as leis da República não permitem que advogados de outros países que não tenham sido colônias de Espanha façam parte desse colégio (de advogados)”. E no ano seguinte morreria, trágica e subitamente.
Caminhando pela Calle de San Miguel, em uma noite de tempestade, ao passar pelo oitão do Hospital San Juan de Dios, ele escorregou no calçamento molhado, e na queda bateu com a cabeça em uma pedra.
Pobremente enterrado, os seus restos perderam-se para sempre.