O "Centauro dos Llanos"


José Antonio Páez

Diferentemente da maioria dos generais de Bolívar, portadores de sobrenomes ilustres, José Antônio Páez, de quem Abreu e Lima se tornaria amigo muito próximo, era mulato e filho de uma família pobre do interior da Venezuela.


Na adolescência, Páez trabalhava como caixeiro na vendinha de um cunhado, na modesta vila de Guama, província do Apure, e certo dia lá foi atacado por quatro malfeitores. Sendo, porém, muito valente, matou um e pôs os outros três para correr; e para não ser emboscado pelos que fugiram, meteu-se pelos llanos adentro e foi trabalhar como peão nas fazendas de gado.


Em 1810 rebentou a revolução e Páez, aos dezenove anos, sentou praça num esquadrão republicano organizado e comandado pelo seu patrão, Pulido. Três anos adiante, já primeiro sargento, derrotou o comandante realista Miguel Marcelino, que ocupava Canaguá com quatrocentos cavaleiros, e foi promovido a capitão.


Capturado em outra batalha, conseguiu fugir, escapando de ser passado pelas armas, e combate após combate escreveu seu nome na história da Venezuela.


Quando os chefes revolucionários que atuavam separadamente nos llanos perceberam, em 1816, a necessidade de se reunir sob as ordens de um único comandante, Páez foi naturalmente escolhido: em seis anos cresceu de soldado a general de brigada.


Suas táticas de combate imprevisíveis desnorteavam o inimigo. Em Mucuritas, com pouco mais de mil cavaleiros derrotou quatro mil homens do brigadeiro Miguel de La Torre tocando fogo na savana e fazendo quatorze cargas repetidas contra eles.


Para permitir a passagem das tropas de Bolivar pelo rio Apure, comandou um pelotão que, a cavalo, atravessou o rio nadando e capturou várias barcas dos espanhóis, numa operação que ficou famosa como a Tomada das Flecheiras.


Seu maior sucesso, porém, foi a batalha de Queceras del Médio, da qual Abreu e Lima foi responsável pela redação do boletim militar. À frente de apenas cento e cinquenta cavaleiros, ele derrotou mil ginetes espanhóis, em campo aberto, e em seguida dispersou três mil infantes inimigos, obrigando-os a fugir para dentro do mato. E o comandante da outra tropa era ninguém menos que o general Pablo Morillo, chefe supremo das forças realistas no continente.


Em Carabobo, a grande batalha que selou a libertação final da Venezuela, sob as ordens diretas de Bolívar, foi ele o único a sobreviver, dentre os três comandantes de divisão patriotas. Nesse mesmo dia foi nomeado comandante-em-chefe de todo o exército republicano.


Abreu e Lima lutou em Carabobo como ajudante de Páez. Lá recebeu um grave ferimento e também um relógio, como lembrança, dado pelo seu general.


Como maior líder venezuelano, Páez acabaria se desentendendo, mais adiante, com o neogranadino Santander, e a disputa entre os dois seria o estopim da bomba que explodiria o projeto da Grã-Colômbia, um dos maiores sonhos de Bolívar.


O Libertador ainda destacaria Abreu e Lima, amigo de ambos, para tentar uma conciliação, mas aquela seria uma missão impossível.


José Antônio Páez teria uma longa vida e intensa participação na política do seu país. Décadas depois visitaria o Brasil, e do Rio de Janeiro enviaria uma carta para o seu velho companheiro Abreu e Lima, então vivendo no Recife.


A resposta de Abreu à carta de Páez, publicada, na época, pelo no Diário de Pernambuco, constitui-se num dos principais documentos biográficos deixados pelo general.