O soldado perfeito

Antonio José de Sucre
“Creia-me, general, ninguém estima tanto a sua glória quando eu”, assim escreveu Bolívar a Sucre, em carta datada de 21 de fevereiro de 1825. O Libertador o tinha na conta de herdeiro, de continuador da sua obra.
Antonio José de Sucre teve uma vida curta e gloriosa, com final trágico. Tinha quase a mesma idade de Abreu e Lima – era apenas um ano mais novo – e origem social semelhante.
Nasceu em Cumaná, Venezuela, no ano de 1795, filho, também, de família rica, distinta e patriota. Educou-se em Caracas e, tal como o pernambucano, estudou matemáticas. Pretendia seguir a carreira de engenheiro, mas largou os bancos escolares e se engajou na revolução desde o início, em 1810, logo se destacando entre seus camaradas. Além de infatigável, era insuperável em inteligência e valor.
Ainda adolescente, serviu com distinção sob as ordens do general Miranda, nos anos 11 e 12. Após a queda da Primeira República, engajou-se, em 1813, na “Campanha Admirável” que retomou sua pátria do domínio espanhol. Seguindo os generais Mariño, Piar, Bermúdez e Valdez, sob o comando geral de Bolívar, e ao lado de umas poucas centenas de valentes, participou diretamente da libertação de três províncias.
Em Maturín e Cumaná destacou-se entre os quinhentos homens mal armados e destreinados que, sob as ordens de Piar, derrotaram oito mil espanhóis em três combates em campo raso.
De 1814 até 1817, Sucre serviu ao Estado Maior do Exército do Oriente. Era o seu melhor organizador, sempre sóbrio e sereno, a despeito da sua juventude. Tanto é que, em meio aos rancores e desentendimentos que naturalmente emergem em meio a uma guerra revolucionária, frequentemente era chamado para assumir os papéis de mediador, guia e conselheiro.
Após a batalha de Boyacá e consumada a libertação de Nova Granada, em 1820, Sucre foi nomeado Chefe do Estado Maior do Exército. Neste mesmo ano, em nome do Libertador, negociou o Tratado de Regularização da Guerra com os representantes do comandante máximo espanhol, general Pablo Morillo.
Daí foi para a província quitenha de Guayaquil, que se levantara contra o domínio europeu, e ajudou a libertá-la. A sua vitória na batalha de Pichincha, juntamente com o sucesso de Bolívar em Bomboná, decretaram a independência final de Quito, atual Equador.
Em seguida recebeu a dupla e dificílima missão, militar e diplomática, de intervir no complexo processo de libertação do Peru, onde, paralelamente à luta contra os colonizadores, travava-se uma tremenda disputa interna entre os próprios peruanos.
Até o general San Martin, o “Protetor” que libertara a província do Rio da Prata e fora para lá a convite dos patriotas locais, para comandá-los, desistira da empreitada e retirara-se, deixando o problema nas mãos de Bolívar e de Sucre.
No Peru estavam as maiores e melhores forças militares espanholas no continente, que há quatorze anos sistematicamente superavam os que ousavam enfrentá-las. Pois Sucre as derrotou, em 1824, de forma completa e esmagadora, na batalha de Ayacucho, selando o fim do domínio europeu na América do Sul.
Por essa estrondosa vitória, o “Waterloo” castelhano nas Américas, ele recebeu o título de Grande Marechal de Ayacucho.
Expulsos definitivamente os europeus, começaram, então as disputas internas entre as diferentes correntes políticas, e os confrontos em função dos interesses localizados. Dessa guerra, porém Sucre recusou-se a participar. A sua grandeza não permitia. Mas o respeito e o temor que ele despertava eram tamanhos que o emboscaram e o assassinaram covardemente, em 1830, aos 35 anos de idade.
Bolívar, ao receber a terrível notícia, exclamou: “Derramaram o sangue de Abel”.