O General das Massas

Busto de Abreu e Lima
José Inácio de Abreu e Lima nasceu no dia 6 de junho de 1794, no Recife. Foi o primeiro dos quatro filhos que teria o “Padre Roma”, advogado e homem de posses, culto, liberal e de família distinta, com laivos de nobreza.
Numa polêmica que enfrentaria pelos jornais, aliás, já no fim da vida, Abreu e Lima seria chamado de “filho de Agar” – insinuando seu oponente que ele seria filho de uma escrava (a “Agar” bíblica) com um padre (que, entretanto, largara a batina para casar).
Ao que ele responderia: “não sendo nosso pai major de linha e daí para cima, está claro que para ser cadete era preciso que tivesse quatro avós nobres, e quem tem avós nobres tem pais conhecidos. Não posso ser filho de Agar escrava porque nasci nobre”.
Esse “nobre”, entretanto, se destacaria como um exaltado defensor dos escravos, dos pobres, dos pés-rapados, a ponto de vir a ser apelidado, jocosamente, de “General das Massas”.
O jovem José Inácio recebeu “uma educação de príncipe”, nas suas próprias palavras, tendo estudado latim, filosofia, retórica, francês e, especialmente, matemática, tanto que se tornaria instrutor dessa matéria em vários quartéis onde serviu.
Em 1812 ele se matriculou na Academia Real Militar, no Rio de Janeiro, graduando-se como artilheiro em 1816. Naquele mesmo ano seguiu para Angola, para instruir a oficialidade, e ao retornar a Pernambuco foi preso por “assuada, resistência e ferimentos” a um oficial superior português.
Recolhido à fortaleza de São Pedro, em Salvador, alguns meses depois teria como colega de cela ninguém menos que o seu pai, José Inácio Ribeiro de Abreu e Lima.
Enviado pelo Governo Provisório de Pernambuco para fazer contato com os patriotas baianos, durante a Revolução de 1817 , o Padre Roma, como era apelidado, caiu prisioneiro ao desembarcar, na praia de Itapoã. E o filho foi obrigado a presenciar o seu fuzilamento, no dia 29 de março daquele ano.
Em outubro, com auxílio da maçonaria, José Inácio fugiu da prisão, juntamente com o irmão Luís. Levando apenas cem pesos em moeda nos bolsos, partiram os dois para a Filadélfia, onde entraram em contato com Antônio da Cruz Cabugá, ex-embaixador da república pernambucana nos Estados Unidos, que os apresentou ao venezuelano Juan Germán Roscio e a outros revolucionários latino-americanos.
Pouco tempo depois, acompanhado Roscio, os irmãos Abreu e Lima seguiram para a Venezuela, tendo o mais jovem, em uma escala da viagem, se assentado em Porto Rico, onde conseguiu emprego numa empresa comercial.
O mais velho, porém, foi em frente, e no início de 1819 chegou à Angostura, cidade erguida em meio à selva amazônica, às margens do rio Orenoco, onde Bolívar montara seu quartel-general.
Lá, Abreu e Lima tornou-se colaborador do jornal Correio do Orenoco, polemizando em suas páginas com Hipólito da Costa, editor do Correio Braziliense – jornal publicado em Londres, com grande circulação em Portugal e nas Américas – que defendia posições bem mais reformistas do que as suas. Lá, ele assistiu ao congresso de fundação da Terceira República venezuelana. E de lá partiu, engajado no Estado-Maior do exército de Bolívar, na jornada militar mais impressionante da História moderna.
Com menos de dois mil homens e perseguido por uma tropa inimiga duas vezes superior, oferecendo-lhe combate várias vezes, pelo caminho, Bolívar, em cinco meses, cruzou a Amazônia; atravessou a extensa região pantanosa dos llanos, totalmente alagada, em tempo de chuvas; escalou os Andes, em pleno inverno; e chegando lá em cima derrotou a Terceira Divisão, um dos melhores corpos militares de Espanha, entrou em Bogotá e libertou o vice-reino de Nova Granada, atual Colômbia.
Abreu e Lima acompanhou o Libertador passo a passo nesse trajeto épico, participando de todas as batalhas. Assim como participou, também, das campanhas dos anos seguintes, que decretaram a libertação de Quito, atual Equador; da Venezuela; e do antigo Peru, que se dividiria nos atuais Peru e Bolívia.
E foi ele quem comandou o cerco a Puerto Cabello, último reduto espanhol no Caribe – cidade cujo porto tem as águas tão tranquilas que uma nau poderia atracar “presa por um cabelo”, e onde a seu nome é lembrado até os dias de hoje.
Pela sua atuação militar, Abreu foi condecorado com o Escudo de Carabobo, as Cruzes de Boyacá e Porto Cabelo, a Esmeralda de Muzo e a Ordem dos Libertadores, entre outras comendas. Também ganhou muitos ferimentos e a fama de “guapo”, corajoso, sendo assim qualificado por ninguém menos que general José Antonio Páez. E “quando um oficial era designado por Páez como valente, todos lhe abaixavam a cabeça”.
Consolidadas, porém, as independências dessas nações, explodiram, então, as intrigas e as disputas pelos espólios; e Abreu e Lima foi envolvido, a contragosto, em outras batalhas, de natureza política.
Na qualidade de fiel escudeiro de Bolívar, passaram a atacá-lo, visando, com isso, atingir indiretamente o Libertador. A sua condição de estrangeiro – em especial, de brasileiro – fazia dele um alvo fácil.
Ora, o Brasil se separa de Portugal, mas se transformara em império, e não república, como seus vizinhos. E o seu jovem imperador, D. Pedro I, era um absolutista ferrenho, que possuía ligações de família com as potências coloniais européias, inclusive pelo casamento com uma princesa austríaca, D. Leopoldina.
“Eu sou americano, não sou estrangeiro, e não quero me confundir com os aproveitadores que somente vieram desfrutar dessa vantagem”, alegava Abreu. E garantia que “nada disso me separará de meu juramento, estou ligado à Colômbia, e enquanto houver um inimigo a combater, eu não a deixarei”.
Mas nem o seu histórico de luta, nem atitudes como a sua renúncia a soldos atrasados, elogiado pela Gazeta Oficial da Colômbia, no artigo “Patriotismo”, de 14 de setembro de 1823, no qual “o Governo mandou agradecer por esse ato de generosidade e de amor à República”, lhe valeram.
Em 1825, já com o posto de coronel, ele passou a sofrer sérios ataques através de jornais que, na verdade, não passavam de “panfletos, no último grau da exaltação e da insolência”.
Seu principal caluniador era Antônio Leocádio Guzmán, editor do El Argos, em Caracas.
Em meio a violentas ofensas ao Brasil, Guzmán advertiu o Secretário da Guerra, general Carlos Soublette, que era um “ultraje” à nação colombiana confiar cargos de comando militar a um “homem da fortuna”, um mercenário. E ainda fez insinuações a respeito de um possível caso amoroso entre Abreu e Lima e Maria Benigna, sobrinha de Bolívar.
De temperamento sanguíneo e exaltado, Abreu procurou Guzmán em plena rua e lhe acutilou o rosto com o sabre, obrigando-o a usar barba pelo resto vida.
“É verdade que eu faria tudo pela integridade da República, é verdade que sempre fugi da guerra civil, mas uma fatalidade inexorável me acompanhou sempre em Colômbia, e afinal não pude me esquivar de cair nela (...); porém, eu estava tão irado que cometi a loucura de acutilar o primeiro canalha que me apareceu”, ele escreveria, algumas décadas depois, em carta ao general Páez.
Por esse gesto, Abreu foi submetido a Conselho de Guerra, afastado do serviço ativo, e enviado para cumprir pena no deserto de Bajo Seco, entre o Lago de Maracaibo e os Andes. Antes disso, Guzmán chegou a visitá-lo no quartel onde ele estava preso, e ali insultá-lo e pedir a sua morte.
No ano seguinte, contudo, Abreu e Lima foi reabilitado e, a mando de Bogotá, preparou uma “Memória sobre os Limites entre o Brasil e a Colômbia”.
O resultado desse trabalho, porém, não agradou a Francisco Santander, que ordenou o seu arquivamento.
No final de 1826 o governo concedeu saída do serviço ativo a Abreu e Lima, no posto de coronel.
Em 1828, porém, Bolívar o chamou de volta, mandou pagar todos os seus soldos atrasados, e o incumbiu de defendê-lo, ao lado do Abade Pradt, numa polêmica na Europa com ninguém menos que o francês Benjamim Constant.
Em 1830, na cidade de Cartagena das índias, o coronel Abreu editava o jornal Torre de Babel, onde atacava diversos inimigos pelos nomes, acusava-os de demagogia, e louvava a pessoa e os princípios do Libertador – cujo final, àquela altura, estava bem próximo.
Para evitar uma guerra civil, Bolívar renunciou a tudo, naquele ano, e saiu de Bogotá em direção ao litoral, onde uma fragata o levaria para o exílio.
Abreu e Lima, promovido a general, foi então designado para o Estado-Maior do Departamento de Madalena, por onde se operava esta retirada. E em defesa do seu comandante, com apenas duzentos soldados, muitos deles doentes, desbaratou uma tropa de rebeldes três vezes maior, em Rio Hacha.
Vitimado pela tuberculose, o Libertador morreu em Santa Marta, no final dessa jornada, antes de embarcar. E no ano seguinte Abreu e Lima seria expulso pelo então Ministro da Guerra, general José Maria Obando, outro dos seus velhos inimigos.
Em 1832, o general estava de volta ao Brasil, depois de uma passagem pela Europa, onde se encontrou com o rei Luís Felipe, na França, e com D. Pedro I, em Portugal.
Foi instalar-se no Rio de Janeiro.
Mas, ao contrário do que se esperaria de quem tanto pelejara pela República, ao chegar alinhou-se, politicamente, com os conservadores do Partido Caramuru.
Desenganado após assistir o esfacelamento da Grã-Colômbia, Abreu e Lima passara a ver no imperador o único ente capaz de manter a nação brasileira coesa. Além disso, em sua opinião, o fim da monarquia, no estágio em que se encontrava aquela sociedade, resultaria na completa tomada do poder pelos “senhores feudais”.
Os proprietários de terras, também os donos dos votos da maioria dos eleitores, pois o Brasil era um país rural, passariam a mandar sozinhos; e eles certamente não se preocupariam com as necessidades das massas.
Em função destas opiniões, o general entrou em conflito com muitos liberais, inclusive o temido jornalista Evaristo da Veiga, além do cônego Januário da Cunha Barbosa.
De Evaristo recebeu inúmeras injúrias. Foi taxado de “foragido, atrevido, vil falador”, que “não passava de um aventureiro, disfarçado com o pomposo título de general”. Já o cônego foi o autor anônimo da comédia “A rusga da Praia Grande ou o quixotismo do General das Massas”.
Mas Abreu, quiçá lembrando-se da prisão em Bajo Seco, evitou cortar a cara de Evaristo, apenas respondendo desaforos com desaforos, através da imprensa. Quanto ao apelido de General das Massas, simplesmente o assumiu, pois se considerava, mesmo, “um dos muitos”.
“Também faço parte deste povo que é depreciado a cada instante e a quem os espertos chamam de vil canalha, depois de havê-lo enganado para encher os bolsos e enriquecer à custa da sua boa-fé”, ele escreveu.
Em 1836 lançou mais um jornaleco, O Raio de Júpiter, do qual tirou vinte e cinco edições, para atacar o regente, padre Diogo Feijó, e defender a regência da princesa Dona Januária, irmã do futuro imperador Pedro II. Mas, desenganado, acabou saindo da política e se lançando na vida intelectual, a começar pela publicação, em 1843, do “Compêndio da História do Brasil desde o seu descobrimento até o majestoso ato da coroação e sagração do Sr. D. Pedro II”.
Em seguida voltou ao seu Recife natal... para cair bem no meio de outra revolução!
Em 1848, ano de tremendas agitações sociais em todo o mundo, explodiu mais um levante democrático em Pernambuco.
Foi a Praieira, movimento assim apelidado porque o principal veículo das agitações era o Diário Novo, jornal sediado na Rua da Praia, que por sua vez ganhara este nome em contraposição ao Diário de Pernambuco, também chamado de “Diário Velho”, alinhado com os conservadores.
E o editor da publicação, além de dono da gráfica que a imprimia, não era ninguém senão Luís Roma, irmão mais novo de José Inácio.
O general, mesmo não concordando com a luta armada, pois temia que ela levasse à destruição da unidade nacional, e permanecendo partidário da monarquia, foi arrastado pela voragem. Acabou sendo preso e levado para a ilha-presídio de Fernando de Noronha.
Seu irmão, Luís, morreu.
Dois anos depois ele seria anistiado, mas se retiraria da política, mantendo interesse apenas pelos livros e pela homeopatia. E tão entusiasmado ficou por este tipo de medicina que abriu em sua casa um consultório para os pobres, onde não só receitava como distribuía mezinhas, tudo gratuitamente.
Entretanto, as polêmicas o perseguiriam até o fim dos seus dias. Embora fosse assumidamente católico, Abreu e Lima era também um ferrenho defensor de todas as liberdades, inclusive a religiosa, pelo que angariou a simpatia dos protestantes ingleses moradores no Recife.
Foi o bastante para chamar contra si a ira do monsenhor Joaquim Pinto de Campos, com quem passou a polemizar: o general no Jornal do Recife e seu adversário no Diário de Pernambuco.
Foi este padre que o chamou de “filho de Agar”.
A morte o colheria em meio a esta polêmica, no dia 8 de março de 1869, sem que ele abjurasse das suas ideias, e o bispo de Olinda, D. Francisco Cardoso Ayres, negou-lhe sepultura em campo-santo brasileiro.
Os seus restos só puderam ser inumados em terras estrangeiras, no cemitério dos ingleses, em Santo Amaro, debaixo de uma cruz celta, onde descansam até hoje.